As Touradas na Cultura Terceirense

sábado, 19 de maio de 2012


 


 A Universidade dos Açores no polo de Angra do Heroísmo, promoveu no dia 18 de Maio de 2012, uma palestra dedicada à temática "As touradas na cultura terceirense".
A Sra. Fátima Albino, representante da Casa Agrícola José Albino Fernandes e a Prof. Isabel Silva, autora do livro "Ganadaria da Ilha Terceira, Casa Agrícola José Albino Fernandes", foram convidadas a participar.
Para que todos os aficionados possam testemunhar o trabalho desenvolvido por esta ganadaria e a sua disponibilidade para os mais diversos projectos, sempre com o intuito de promover e dignificar a Festa Brava, deixamos um resumo da intervenção de Fátima Albino.

 "Como é do Vosso conhecimento a nossa ganadaria tem o nome de Casa Agrícola José Albino Fernandes. E a nossa ligação aos toiros deve-se ao meu avô José Diniz Fernandes, que teve ganadaria de 1932 a 1944 e de 1956 a Maio de 1967.
Meu pai inicia a nossa ganadaria em Outubro de 1967 e com o objetivo de ocupar os terrenos da família no Cabrito.
Atualmente, eu e o meu marido levamos a ganadaria com o apoio incondicional das minhas filhas e dos meus genros. Cada vez mais é exigido o esforço de toda a família, não só por motivos económicos, mas também pelo carinho e paixão que a minha família imprime à nossa atividade.
Como foi referido e enaltecido anteriormente as touradas à corda têm uma componente cultural e económica muito importante para a vida da Ilha Terceira.
São a oportunidade de algumas famílias manterem o seu sustento através das tascas e dos vendedores nos arraiais, do nosso comércio sofrer uma dinamização importante na área da alimentação, do vestuário e calçado, da construção, pois as festas geram compras, o receber bem os amigos e familiares, o usar duma roupa e uns sapatos novos, o ter a casa caiada e apresentada para bem receber as visitas, muitas delas anuais, mas que são esperadas com gosto, com tradição. As nossas festas sempre estiveram ligadas à comunidade, com aspetos positivos e negativos, com a vontade de servir e bem, demonstrando uma disponibilidade e uma entreajuda, que resultava em festas bonitas e relembradas pela vida inteira e uma componente de entreajuda enriquecedora. Estas vivências estão a distanciar-se das nossa vivencias atuais!
Estes valores estão a desaparecer e algo deve ser feito, porque com facilidade encontrávamos gente pronta a servir os Impérios nas Festas do Espírito Santo e as Festas das suas Freguesias. Hoje, nós estamos virados para o eu, para um modo de estar egoísta e centrado em si, para a excessiva importância que se dá à carreira, ao bem-estar próprio e cada vez mais, o nosso bem-estar é o projeto mais importante da nossa vida. As nossas festas são um dos maiores exemplos que conheço de fraternidade de espírito aberto e aceitação e importância que deve ter os outros.
No aspeto dos capinhas são um enaltecimento dos afoitos, e por vezes um meio de reconhecimento, de importância que tanto bem faz à autoestima dos menos favorecidos. Eu tenho o exemplo de um capinha de 80 anos que vive na minha casa há 50 anos e que ainda hoje é conhecido, é abordado pelo modo como “chamava” ou capeava os toiros. O Joaquim Gonçalves Lestinho, mais conhecido por “Burra Branca”, porque desde os 19 anos tinha o cabelo branco, quando vai à cidade, facilmente é abordado por emigrantes, por apaixonados pela Festa Brava que relembram episódios que ficaram na retina.
As nossas touradas de praça são marcantes nas nossas Sanjoaninas, são muito importantes para a nossa ilha e têm sofrido uma grande evolução, a nível de criação de toiros, de investimento na qualidade dos toiros próprios para a lide numa praça. São um marco na tauromaquia nacional e um motivo de visita de quem gosta de toiros e aprecia bons carteis.
Referindo para terminar a atividade ligada à criação de gado bravo são o aproveitamento dos terrenos mais pobres do interior da ilha e originam uma ligação aos aficionados, aos pastores e colaboradores, que nos seus tempos livres procuram a nossa ganadaria, dando a sua colaboração braçal nos trabalhos do tratamento dos animais, nas mudas e no maneio, na reposição de paredes, além disso são um elo de ligação com a comunidade e fazem com que alguns mordomos das festas nos procurem e contratem os nossos toiros, tendo em conta a sua paixão pela qualidade de investida e comportamento."
Fátima Albino, 18 Maio de 2012




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