A Universidade dos Açores no polo de Angra do Heroísmo, promoveu no
dia 18 de Maio de 2012, uma palestra dedicada à temática "As touradas na
cultura terceirense".
A Sra. Fátima Albino,
representante da Casa Agrícola José Albino Fernandes e a Prof. Isabel Silva,
autora do livro "Ganadaria da Ilha Terceira, Casa Agrícola José Albino
Fernandes", foram convidadas a participar.
Para que todos os aficionados possam
testemunhar o trabalho desenvolvido por esta ganadaria e a
sua disponibilidade para os mais diversos projectos, sempre com o intuito
de promover e dignificar a Festa Brava, deixamos um resumo da intervenção de
Fátima Albino.
"Como é do Vosso conhecimento
a nossa ganadaria tem o nome de Casa Agrícola José Albino Fernandes. E a nossa
ligação aos toiros deve-se ao meu avô José Diniz Fernandes, que teve ganadaria
de 1932 a 1944 e de 1956 a Maio de 1967.
Meu pai inicia a nossa ganadaria em
Outubro de 1967 e com o objetivo de ocupar os terrenos da família no Cabrito.
Atualmente, eu e o meu marido levamos a
ganadaria com o apoio incondicional das minhas filhas e dos meus genros. Cada
vez mais é exigido o esforço de toda a família, não só por motivos económicos,
mas também pelo carinho e paixão que a minha família imprime à nossa atividade.
Como foi referido e enaltecido
anteriormente as touradas à corda têm uma componente cultural e económica muito
importante para a vida da Ilha Terceira.
São a oportunidade de algumas famílias
manterem o seu sustento através das tascas e dos vendedores nos arraiais, do
nosso comércio sofrer uma dinamização importante na área da alimentação, do
vestuário e calçado, da construção, pois as festas geram compras, o receber bem
os amigos e familiares, o usar duma roupa e uns sapatos novos, o ter a casa
caiada e apresentada para bem receber as visitas, muitas delas anuais, mas que
são esperadas com gosto, com tradição. As nossas festas sempre estiveram
ligadas à comunidade, com aspetos positivos e negativos, com a vontade de
servir e bem, demonstrando uma disponibilidade e uma entreajuda, que resultava
em festas bonitas e relembradas pela vida inteira e uma componente de
entreajuda enriquecedora. Estas vivências estão a distanciar-se das nossa
vivencias atuais!
Estes valores estão a desaparecer e algo
deve ser feito, porque com facilidade encontrávamos gente pronta a servir os
Impérios nas Festas do Espírito Santo e as Festas das suas Freguesias. Hoje,
nós estamos virados para o eu, para um modo de estar egoísta e centrado em si,
para a excessiva importância que se dá à carreira, ao bem-estar próprio e cada
vez mais, o nosso bem-estar é o projeto mais importante da nossa vida. As
nossas festas são um dos maiores exemplos que conheço de fraternidade de
espírito aberto e aceitação e importância que deve ter os outros.
No aspeto dos capinhas são um
enaltecimento dos afoitos, e por vezes um meio de reconhecimento, de
importância que tanto bem faz à autoestima dos menos favorecidos. Eu tenho o
exemplo de um capinha de 80 anos que vive na minha casa há 50 anos e que ainda
hoje é conhecido, é abordado pelo modo como “chamava” ou capeava os toiros. O
Joaquim Gonçalves Lestinho, mais conhecido por “Burra Branca”, porque desde os
19 anos tinha o cabelo branco, quando vai à cidade, facilmente é abordado por
emigrantes, por apaixonados pela Festa Brava que relembram episódios que
ficaram na retina.
As nossas touradas de praça são
marcantes nas nossas Sanjoaninas, são muito importantes para a nossa ilha e têm
sofrido uma grande evolução, a nível de criação de toiros, de investimento na
qualidade dos toiros próprios para a lide numa praça. São um marco na
tauromaquia nacional e um motivo de visita de quem gosta de toiros e aprecia bons
carteis.
Referindo para terminar a atividade
ligada à criação de gado bravo são o aproveitamento dos terrenos mais pobres do
interior da ilha e originam uma ligação aos aficionados, aos pastores e
colaboradores, que nos seus tempos livres procuram a nossa ganadaria, dando a
sua colaboração braçal nos trabalhos do tratamento dos animais, nas mudas e no
maneio, na reposição de paredes, além disso são um elo de ligação com a
comunidade e fazem com que alguns mordomos das festas nos procurem e contratem
os nossos toiros, tendo em conta a sua paixão pela qualidade de investida e
comportamento."
Fátima Albino, 18 Maio de 2012